“O que é ser mulher?” Contribuições de Simone de Beauvoir ao Feminismo
Publicado em 21/04/2021 às 15:00 por Julia Cristina Pinheiro

A construção de qualquer pensamento teórico envolve, sobretudo, a consulta a filósofos e cientistas da área. Com o pensamento Feminista não é diferente e é quase inconcebível falar sobre a teoria e o movimento sem mencionar a filósofa francesa Simone de Beauvoir. Apesar da teoria conter um grande leque de pesquisadoras feministas, grande parte dessas teóricas surgiram a partir dos escritos revolucionários de Beauvoir. Essas ideias se tornaram marco na história do feminismo.

Nascida em Paris em 1908, Simone de Beauvoir publicou muitos livros, desde autobiografias a romances e ensaios. Viveu a eclosão da Segunda Guerra Mundial e afirma, em suas autobiografias, ter despertado sua percepção da importância da coletividade, da conexão com o outro, da participação política e do engajamento social (CALADO, 2012). Em 1949, Beauvoir publica seu estudo sobre a condição feminina que vira um marco do movimento feminista.

O Segundo Sexo foi publicado com uma intenção inicial de falar de si mesma e, para isso, a autora se voltou a antigos mitos que tinha como base a idealização da feminilidade. Beauvoir conclui que estava inserida num sistema da qual pensava ter escapado.

Constatou que, na cultura ocidental, a mulher, frequentemente, foi vista como o outro, não uma agente, mas um objeto. Como nenhuma realidade humana é “natural”, esta também poderia ser transformada. Investigadas e compreendidas as causas da criação destas tradições, cada mulher poderia descobrir-se sujeito. A existência estava por fazer, inclusive a sua (CALADO, 2012, p. 71)

A identificação da mulher como sujeito e não como o Outro, é um dos problemas centrais da obra e aponta que a subordinação feminina é uma questão ontológica. Beauvoir afirma que o Outro — com maiúscula — é todo aquele que não é “Sujeito”, que é marginal, hostilizado, oprimido e não possui voz. A autora discorre também sobre a possibilidade da percepção da mulher como um outro, em minúsculo, onde ocorre o reconhecimento de homens e mulheres como o outro para o outro (CALADO, 2012).       

O lançamento de O Segundo Sexo marcou a Segunda Onda do Feminismo, onde ocorria uma passagem de um feminismo igualitarista para um centrado na mulher. Neste período as mulheres conquistaram alguns poucos direitos, como o poder de voto e a ampliação de direitos trabalhistas (RIBEIRO, FRANÇA, 2014). Na obra de Beavouir a autora buscava colocar a liberdade das mulheres como algo circunstancial, onde as escolhas derivam do contexto em que o indivíduo está inserido e não em uma verdade universal (RIBEIRO, FRANÇA, 2014).

Beauvoir questiona todo o determinismo biológico recaído sobre a mulher resultando na sua famosa afirmação de que: não se nasce mulher, mas torna-se mulher (BEAUVOIR, 1967). Na obra, a autora critica também questões como a função da maternidade no período pós guerra, onde a defesa da família, da moral e dos bons costumes estava em alta. Beauvoir trouxe questões como liberdade sexual, contracepção e liberação do aborto (SCAVONE, 2008).

Beauvoir traz à tona também questões como a dominação masculina e como esta está enraizada em todas as estruturas da sociedade. Desde a família, onde se vivencia os primeiros sintomas dessa dominação, até outros campos como: história, literatura, canções, lendas, mitologias, religiões e etc (ALMEIDA, 1999).

Quanto mais a criança cresce, mais o universo se amplia e mais a superioridade masculina se afirma (…). A hierarquia dos sexos manifesta-se a ela [à menina] primeiramente na experiência familiar; compreende pouco a pouco que, se a autoridade do pai não é a que se faz sentir mais cotidianamente, é entretanto a mais soberana; reveste-se ainda mais de brilho pelo fato de não ser vulgarizada (…). A vida do pai é cercada de um prestígio misterioso: as horas que passa em casa, o cômodo em que trabalha, os objetos que o cercam, suas ocupações e manias têm caráter sagrado. Ele é quem alimenta a família, é o responsável e o chefe. Habitualmente trabalha fora e é através dele que a casa se comunica com o resto do mundo: ele é a incarnação desse mundo aventuroso, imenso, difícil, maravilhoso; ele é a transcendência, ele é Deus. (BEAUVOIR, 1967, p.29)

A questão do enraizamento corporal é, também, um ponto central para Beauvoir. Para ela, ser o segundo sexo é uma condição de uma subjetividade corporificada (CYFER, 2015). Beauvoir afirma que “não é enquanto corpo, mas enquanto corpo submetido a tabus, a leis, que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza” (Beauvoir, 1980, p. 56). Sendo assim o corpo é a consolidação do modo de viver no mundo.

As problematizações de Simone de Beavouir não poderiam ser menos aceitas em sua época. Em um período pós guerra marcado por uma sociedade patriarcal e androcêntrica, criticar a estrutura do sistema, o papel da mulher, a família e questões como aborto, colocava Beauvoir no centro das críticas. Mesmo alguns anos depois, algumas teóricas feministas ainda criticavam a abordagem de Beauvoir, como Toril Moi que discordava da ideia de igualdade pregada pela autora, partindo do pressuposto de que se as mulheres quisessem se tornar iguais aos homens, buscariam tornar-se eles (RIBEIRO, FRANÇA, 2014).

As contribuições de Simone de Beauvoir são marcantes para o movimento feminista, os dizeres “não se nasce mulher, mas torna-se mulher” marcaram o movimento a partir do momento em que abriu portas para uma liberdade desconhecida pelas mulheres. O ideal de que as mulheres eram tão donas de si mesma como os homens e tinham tanta liberdade, seja sexual ou social, quanto eles, de fato, mudaram o curso do movimento.

Atualmente, é possível ver vestígios da obra de Beauvoir em muitas produções científicas, mas ainda assim, a autora parece estar camuflada ou silenciada em alguns currículos (RIBEIRO, FRANÇA, 2014). Apesar disto, é imprescindível a presença de Beauvoir em produções feministas que busquem uma abordagem histórica e atual do movimento. A filósofa francesa deixou um legado extenso para ser utilizado, explorado cientificamente e levado a prática.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Marlise M. de M. Simone de Beauvoir: uma luz em nosso caminho. Rio de Janeiro: Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, 1999.

BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo: a experiência vivida. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 2ª ed., 1967.

CALADO, Eliana Alda F. Autobiografias de Simone de Beauvoir: Sujeito, Identidade, Alteridade. Brasília: Universidade de Brasília, 2012. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/10823/1/2012_ElianaAldadeFreitaCalado.pdf Acesso em 20 de abril 2021.

CYFER, Ingrid. Afinal, o que é uma mulher? Simone de Beauvoir e “a questão do sujeito” na teoria crítica feminista.Lua Nova,  São Paulo ,  n. 94, p. 41-77,  2015 . Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-64452015000100003&lng=en&nrm=iso Acesso em 20 de abril 2021.

RIBEIRO, Tamires A., FRANÇA, Fabiane F. Simone de Beauvoir e o movimento feminista: contribuições à Educação. Londrina: Universidade Estadual de Londrina, 2014. Disponível em: http://www.uel.br/eventos/gpp/pages/arquivos/GT6_Tamires%20Almeida%20Ribeiro.pdf Acesso em 20 de abril 2021.

SCAVONE, Lucila. Estudos de Gênero: uma sociologia feminista? Florianópolis, 16(1): 288, janeiro-abril 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/ref/v16n1/a18v16n1.pdf Acesso em 20 de abril 2021.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*