Mulherismo: A vertente africana do feminismo
Publicado em 07/04/2021 às 13:00 por Julia Cristina Pinheiro

Origem do discurso de gênero

Como ponto de partida deste artigo, é importante frisar que o feminismo tem sua origem na luta pelos direitos das mulheres por volta do final do século XVIII e teve seu crescimento inicial na Europa e Estados Unidos quando mulheres reconheceram a opressão e tomaram medidas para combatê-la (EBUNOLUWA, 2009). Segundo Bamisile (2013), historicamente, são diversas as ideias feministas e estão ligadas a diferentes movimentos culturais. Deste modo, ainda é difícil produzir uma definição universal do termo.

Existem diversas definições do feminismo e a grande maioria não chega a um consenso entre as feministas, tornando-se um dos pontos fracos do movimento (BAMISILE, 2013). Entretanto, Bamisile (2013) afirma que as diferentes definições apenas comprovam a dimensão dos pontos de vistas do feminismo e focam na experiência feminina. Ruth Sheila (1980 apud EBUNOLUWA, 2009), ressalta que o significado do feminismo depende da visão política, dos objetivos, idealização ou interpretação da “mulher”. Ou seja, a definição será dada de acordo com o contexto em que se está inserido.

Ainda assim, embora haja discrepâncias sobre a definição do termo, pode-se afirmar que o feminismo tem como objetivo a emancipação feminina da opressão política, econômica, cultural, social, física e fisiológica (BAMISILE, 2013). Essa necessidade de libertação, implica que a mulher se envolva em lutas de libertação em escala nacional, planos de desenvolvimento e busca de direitos para mulheres além de lutas pela mudança também em níveis globais.

O feminismo no continente africano

Ao falar sobre o continente africano, é preciso ter cautela quanto a imensa quantidade de etnias que abrangem, não podendo, de forma alguma, ser generalizado. Freitas (2018, p. 1) destaca que “existem diversas Áfricas em sua diversidade cultural, histórica e religiosa”. Visto isto, não se deve e nem é possível analisar o pensamento africano quanto ao feminismo de forma homogênea, sem diferenciar seus países, culturas e povos (FREITAS, 2018).

Analisando o movimento feminista, é possível afirmar que embora na teoria o feminismo pregue a emancipação de todas as mulheres da opressão patriarcal, na prática, o movimento falhou em considerar as peculiaridades das mulheres e homens negros. Patrícia Collins (1990 apud EBUNOLUWA, 2009, p. 2) afirma:

“Apesar de que as intelectuais negras tenham expressado, desde muito tempo, uma consciência feminista única sobre a intersecção de raça e classe na estruturação de gênero, historicamente não temos sido participantes plenas das organizações feministas brancas.”

Na prática, o feminismo estava focado nas necessidades das mulheres brancas de classe média da Grã Bretanha e dos Estados Unidos, transmitindo a ideia de que era um movimento de emancipação global da mulher. Essa exclusão resultou na necessidade de desenvolver uma teoria ou ideologia que atendesse as necessidades das mulheres negras. Alice Walker propõe em sua coleção de ensaios In Search of Our Mothers Gardens: Womanist Prose uma vertente do feminismo chamado Mulherismo (EBUNOLUWA, 2009). A autora define o termo como:

“Uma feminista negra ou uma feminista de cor… Uma mulher que ama as outras mulheres, sexual e/ou não sexualmente. Aprecia e prefere a cultura das mulheres, a flexibilidade emocional das mulheres (o valor das lágrimas como contrapeso natural do riso) e a força das mulheres. Às vezes, ama os homens individualmente, sexual e/ou não sexualmente, comprometida com a sobrevivência e a integridade de todo o povo, de seus homens e mulheres. Não é separatista, exceto periodicamente na saúde. Tradicionalmente universalista… Ama a música. Ama dança. Ama a lua. Ama o espírito. Ama a luta. Ama o povo. Ama a si mesma. Independentemente, uma mulherista está para o feminismo como o roxo está para a lavanda” (WALKER, 1983, apud ABUNOLUWA, 2009 p. 3)

O ideal feminista africano preza pelo bem coletivo em geral e, diferentemente, do feminismo ocidental, rejeitam a visão de que problemas como pobreza, exploração capitalista, falta de recursos básicos e corrupção, não pode seguir uma linha de cooperação entre os sexos (FREITAS, 2018). A perspectiva africana necessita dessa cooperação e acredita que, tanto os homens, quanto as mulheres, devem trabalhar juntos contra os problemas que os cercam. Freitas (2018) afirma que, portanto, é possível chamar essa abordagem feminista de mais humanista, uma vez que busca garantir o bem-estar de ambos os sexos.

“Sendo assim, o mulherismo se difere do feminismo, porque reconhece a tripla opressão das mulheres negras em que a opressão racial, sexista e de classe é identificada e combatidas pelas mulheristas, em contraposição a preocupação principal do feminismo pela opressão sexista”. (EBUNOLUWA, 2009, p. 4)

Além disso, as feministas africanas reconhecem e celebram a diversidade africana, buscando construir agendas que beneficiem as diferentes sociedades que compõe o continente (FERREIRA, MACEDO, 2018). É o caso do Feminismo Islâmico — um movimento voltado para a interpretação das fontes religiosas islâmicas — que também possui um lugar dentro da África (FERREIRA, MACEDO, 2018).

Minna Salami, jornalista nigeriana, destaca em seu artigo “sete questões-chave no pensamento feminista africano” que resume, de certa forma, os temas que abrangem as discussões das mulheres africanas. Segundo Ferreira e Macedo (2018), são estas, resumidamente:  Patriarcado: atenção em como o sistema valoriza mais o homem do que a mulher e utiliza de seus costumes, leis, educação, linguagem e etc. para manter as mulheres sob o poder dos homens; Raça: enfoque nas hierarquias raciais e políticas, principalmente causadas por colonizadores e que afeta todos os africanos; Tradição: a busca das femininas pela convergência dos costumes que ferem a mulher de diferentes formas; Desenvolvimento: a crença de quem somente através de instituições que resistam a hegemonia estrangeira, os povos africanos conseguirão desenvolver economicamente e socialmente; Sexualidade: “as feministas africanas buscam promover o direito de propriedade sobre o próprio corpo quando, hoje, entre outros, mulheres lésbicas e queer são perseguidas por Estados africanos” (FERREIRA, MACEDO, 2018, p. 6). Feminismo Internacional: o feminismo africano reconhece que deve haver cooperação entre as diferentes vertentes feministas no mundo todo, embora ainda precise aprender a dialogar com o feminismo branco-ocidental; Arte: é um método utilizado para extravasar seus sentimentos de forma revolucionária, criando novas tradições e propagando a ideia de que amor e justiça são complementos da revolução e mudança (FERREIRA, MACEDO, 2018).

Juntamente com a teoria, vem também a necessidade de auto nomeação das mulheres africanas. Ao dar nome ao próprio movimento, essas mulheres reivindicam o poder de autodeterminação que lhes foi negado, seja por meio da política de criação ou pela exclusão que cerca a academia feminista (FREITAS, 2018). Audre Lorde, em seu ensaio A transformação do silencio em linguagem e ação (1984) fala sobre discursos transformativos e Freitas (2018) utiliza deste método para analisar essa narrativa. A autora afirma que, ao levantar suas vozes para falar de suas realidades, as mulheres africanas apresentam propostas alternativas ao feminismo ocidental e que, depois de tanto tempo de silenciamento, as mulheres negras africanas ganham sua própria voz.

Ademais, neste breve artigo, percebemos que a vertente africana possui muitas semelhanças com o feminismo ocidental vigente, porém sua forma analítica e metodológica é diferente. É levado em consideração questões multiculturais e econômicas, mostrando-se, de fato, um movimento mais humanista. Portanto, é possível ver o surgimento de um movimento separatista africano como uma crítica ao feminismo, ressaltando a necessidade de um maior comprometimento das feministas ocidentais com as mulheres em geral e os contextos em que estão inseridas. Da mesma forma, é preciso também haver um diálogo mais forte entre as teóricas do Mulherismo e do Feminismo de forma que seja possível, em algum futuro, unificar os dois movimentos como um só.

REFERÊNCIAS

EBUNOLUWA, Sotunsa Mobolanle. Feminism: The Quest for an African Variant. The Journal of Pan African Studies, vol.3, n.1, 2009, p. 227-234, tradução por Luana Cristina Muñoz Roriz.

FERREIRA, Thuila Farias, MACEDO, José Rivair. Africanas: O Feminismo em Perspectiva Afrocentrada. Uberlândia: Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, 2018. Disponível em: https://www.copene2018.eventos.dype.com.br/resources/anais/8/1538306522_ARQUIVO_COPENE-ARTIGOCOMPLETOPARAPUBLICACAO-AfricanasoFeminismoemperspectivaafrocentrada-ThuilaF.Ferreira.pdf Acesso em 07 de abril 2021.

FREITAS, Alessandra Martich. Feminismo africano e nigeriano em Americanah de Chimamanda Ngozi Adichie: da teoria à ficção. Uberlândia: Congresso Brasileiro de Pesquisadores Negros, 2018. Disponível em: https://www.copene2018.eventos.dype.com.br/resources/anais/8/1528659532_ARQUIVO_FeminismoafricanoenigerianoemAmericanah-ArtigoCopene2018.pdf Acesso em 07 de abril 2021.

BAMISILE, Sunday Adetunji. A procura de uma ideologia afro-cêntrica: do feminismo ao afro-feminismo. São Paulo: Via Atântica, nº24, p. 257-279, 2013. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/viaatlantica/article/view/58303/99093 Acesso em 07 de abril 2021.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

*