Pachinko – Um livro sobre a dor coreana
Publicado em 02/04/2021 às 10:00 por Barbara Rodrigues

Pachinko foi escrito pela autora sul-coreana, Min Jin Lee. A qual também foi a mulher de nossa escolha para representar a Coréia do Sul no mapa da página inicial.

Lee conta, nos agradecimentos de Pachinko, que sua ideia para o livro surgiu primeiro em 1989 e se aprofundou ao ouvir uma palestra de um missionário americano sobre os coreanos japoneses que eram classificados como “estrangeiros que residem no Japão” – sendo que eram a quarta ou terceira geração de coreanos que migraram pro Japão.

Ela era apenas uma universitária nessa época e compartilha sua memória “O missionário […] contou o caso de uma adolescente que, no ensino médio, foi intimidado e insultado em seu anuário por causa de sua origem coreana. O garoto se atirou do prédio e morreu. Nunca me esqueci disso.” (LEE, 2020, p. 524).

Min Jin Lee ficou fascinada por contar a história desses coreanos japoneses e escreveu diversas histórias, tendo um de seus contos publicado apenas em 2002. Motherland foi publicado pelo Missouri Review e ganhou o Prêmio Peden. Ela também recebeu uma bolsa da New York Foundation for the Arts, segundo Lee (2020, p. 524)

“[…] a bolsa da NYFA confirmou minha crença obstinada de que as histórias dos coreanos no Japão tinham que ser contadas de alguma forma, já que grande parte dessas vidas havia sido depreciada, negada e apagada”.

Ela foi muito criteriosa para escrever esse livro, fez um primeiro rascunho e ficou insatisfeita. Somente em 2007 que teve a oportunidade de conversar com o foco de sua obra, ela entrevistou diversos coreanos no Japão, “Fiquei tão comovida com a envergadura e a complexidade das pessoas que conheci no Japão que abandonei meu antigo rascunho e comecei o livro novamente em 2008 […]” (LEE, 2020, p. 524).

Pachinko foi publicado pela primeira vez em 2017, sendo trazido somente em 2020 pela Intrínseca. Sua estreia primeiro foi pelo clube da editora, o Intrínsecos, o qual eu assino e tive a oportunidade de ler na versão da coleção – que é cinza, capa dura e linda *surto*. Coloquei muitas flags (ou post-its, como quiserem chamar) em várias frases, vou deixar uma foto abaixo para vocês terem uma noção do quanto gostei desse livro.

A iniciativa de pegar Pachinko da estante para ler foi por causa da notícia que a Apple TV iria adaptar para um dorama e o Lee Min-ho iria participar. Eu e alguns amigos da Twitch organizamos uma Leitura Conjunta, por isso trouxe a opinião de duas delas – a Flávia e a Gabi.

“A autora apresenta suavemente a solidão de gerações de uma família que foi desumanizada por uma guerra, causando a dor mais brutal que eu já senti ao mergulhar na narrativa de personagens únicos como os dessa história.” – Flávia

“A mudança no protagonismo desse livro me fez refletir sobre o quanto a relevância das pessoas pode ser efêmera. Uma história real, sem floreios, emocionante no sentido mais cru da palavra e que me marcou como leitora.” – Gabi

O que me chamou atenção no livro foi como a mulher coreana era tratada no começo do século 20. Ele inicia contando a história de uma mulher que foi arranjada em casamento por seu pai que precisava muito da troca, depois foca na história dela e de sua filha, Sunja. Essas duas mulheres trabalham muito para manter uma pequena pensão que abriga pescadores que se revezam para dormir nos aposentos, elas lavam suas roupas, preparam a comida, costuram para eles e limpam.

Sunja acaba ficando grávida, tendo que se casar e mudando para Osaka. Onde é possível ver muito o preconceito sofrido por coreanos que só podem morar em um bairro que é mal estruturado, alugam de japoneses casas precárias, seus trabalhos são péssimos e têm de fazer o máximo para não chamar atenção.

Ela mora com seus cunhados e seu marido numa casinha desse bairro. Enquanto os dois trabalham, ela e a cunhada cuidam da casa. Mais para frente, elas manifestam sua vontade de trabalhar e são caladas imediatamente pelo cunhado de Sunja – que diz que mulher não trabalha.

Sunja meteu as caras, mesmo assim, para ganhar seu dinheiro, vendendo kimchi na rua. Essa foi uma das primeiras manifestações fortes de feminismo da história dela, mas no livro você pode encontrar várias vezes que essa mulher foi resistente e mesmo sendo coreana no Japão conseguiu dar o máximo por seus filhos.

Como o livro se trata de gerações, o foco é passado para outros personagens conforme o livro vai se desenvolvendo ao longo do século passado inteiro. O que também chama atenção são os acontecimentos históricos, deixando cada vez mais interessante. É um livro triste, trágico, real e engrandecedor.

Uma das partes que vai ficar pra sempre registrada na minha cabeça é a fala de uma mulher para Sunja:

“Claro que sim! Sunja-ya, a vida de uma mulher é trabalho e sofrimento sem fim. É sofrimento após sofrimento. É melhor se preparar, sabe. Você está se tornando uma mulher, então precisa aprender isto: o homem com quem vai se casar vai determinar sua qualidade de vida. Um bom homem vai lhe dar uma vida decente, já com um homem ruim você terá uma vida amaldiçoada… Mas não importa o que aconteça, sempre espere sofrimento e continue trabalhando duro. Ninguém se preocupa com uma mulher pobre… a não ser nós mesmas.” (Página 37).

Referência
LEE, Min Jin. Pachinko. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.


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