A mulher no metal extremo
Publicado em 26/03/2021 às 10:00 por Barbara Rodrigues

Quando as pessoas me conhecem sempre gera um espanto ou uma associação forte ao meu gosto musical. Eu nem preciso abrir a boca para fazerem isso, desde 2010 sempre ando por aí com camisetas de banda que até já considero uma marca registrada, nem sempre são as mais bonitas de acordo com o gosto comum – as vezes rola umas cruzes invertidas, pentagramas, bodes, capeta, coisas religiosas sendo depredadas e até mesmo o desenho da logo ou o nome da banda assusta. Satanista? Bruxa? Rebelde sem causa? Louca? Essa sou eu desde os 12 anos – uma trajetória de mais de 10 anos que acho que vale ser contada.

Lembro bem quando comecei a me inserir no meio do metal e foi por causa de uma mulher, Angela Gossow. Na época do MSN ainda, em meados de 2010, um amigo virtual me apresentou a mulher que ele tinha como “musa”, era uma alemã que berrava e parecia tão confiante no meio de um monte de homem. Eu fiquei viciada na banda dela – o Arch Enemy – por um bom tempo, no momento que pus os olhos naquela mulher já soube que queria ser que nem ela. Eu queria entrar no meio dos homens como a Angela. Quando me perguntam até hoje quem é minha cantora favorita, respondo que é ela – mesmo que ela tenha dado os vocais da banda para outra mulher maravilhosa, a Alissa White-Gluz.

Fui refinando o meu gosto com o passar dos tempos. No começo, além de bandas masculinas como Black Sabbath, Motörhead e Metallica, eu gostava do vocal lírico feminino – Nightwish, Evanescence, Tristania, Lacuna Coil e principalmente da música Nymphetamine do Cradle of Filth. Só em 2012 que troquei o vocal característico do heavy metal e do metal sinfônico pelo gutural – é o que meu pai “carinhosamente” chamava de berro -, entrando finalmente no metal extremo.

Pesquisando um pouco sobre as mulheres na cena do metal para essa coluna, vi a Julia Claudino e a Ângela Euterpe falando da dificuldade de aceitação das mulheres no gutural, a Julia diz “Quando há pouco tempo atrás a gente não era nem aceita, a gente tinha aquele negócio quando falava que cantava gutural, que cantava música extrema…”, a Ângela completa “Tinha gente que achava que era um homem […]” e a Julia diz “’Você toca o quê? Você toca o que na banda?’ Nunca era a vocalista, né?”. A gente percebe aí a dificuldade da mulher na jornada de ascender como admiradora de gêneros como death, black e thrash metal que são proeminentes no gutural, onde a técnica é marcada como “voz de homem”. Ainda bem que em 2021, os homens aprenderam na marra a respeitar a presença do vocal feminino, pelo menos no Brasil o Nervosa, a Mayara Puertas no Torture Squad e o Valhalla de Brasília são grandes símbolos da nossa presença nos palcos.

Já eu, como uma mera admiradora desses gêneros citados, lá para os 15/16 anos comecei a gostar muito de bandas que os homens mais chatos defendiam com unhas e dentes. No Facebook, já fui diversas vezes abordada por homens no inbox que viam minhas fotos com camisetas do Death, Bathory, Morbid Angel, Krisiun e Napalm Death (bandas de death e black metal) me entupindo de perguntas sob o pretexto de “ver se eu era fã mesmo”, eu tinha que saber até que horas foi a primeira reunião da banda nos anos 80. Se homens passavam por isso? Eu duvido muito, o metal é um gênero musical feito por homens para homens, onde a presença feminina gera um estranhamento a ponto de nos fazerem querer sair correndo, mas eu fiquei. Estou aqui até hoje.

Tentaram me assustar com a história do Mayhem – a “banda mais maléfica da história”, o vídeo de “Carving a Giant” do Gorgoroth – onde tem exibição de pessoas nuas fixadas em cruzes, muito sangue e fogo –, e até mesmo com capas de álbuns explícitas, como as do Cannibal Corpse. Mas eu sempre fui obstinada com o que gosto, por meses ficava procurando por tudo isso e depois estava lá no meio deles discutindo, fazendo eles me engolirem.

Demorou um tempo para que eu e outras mulheres passássemos de pé no saco para os homens nessas discussões e começássemos a ser objetos de desejo. Nós nunca fomos comuns, em vídeos de homens falando sobre as mulheres nas bandas somos marcadas como “gatas” ou “gostosas” ao mencionarem nosso talento. É tão difícil saber que as mulheres que idolatro nunca serão vistas por quem são. A Angela Gossow nunca será a mulher admirável dos meus olhos, ela será uma “gata”. A Maria Brink nunca será uma mulher f*da, apenas uma “gostosa”. Mas se eu falo que tal homem é bonito? Isso gera a maior confusão, porque “não entendo o talento dele”, “só estou ali pela beleza dele”.

É assim que os homens nos enxergam aqui dentro. Eles continuam fazendo o possível para nos espantar, mas a presença da mulher em shows de metal extremo tem se tornado a cada ano mais comum, esmagando esse machismo enrustido. Tenho muito orgulho de me ver como parte dessa luta. 

Referência
MULHERES NO METAL: a representatividade feminina na cena pernambucana | TUPFS Entrevista #08. Pernambuco: Tomar Uma Para Falar Sobre, 2020. Vídeo do YouTube, son., color. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=A9GER_PhxKI. Acesso em: 22 mar. 2021.


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