“We Can Do It!” – A transformação de um símbolo de guerra em figura de empoderamento feminino.
Publicado em 17/03/2021 às 12:12 por Julia Cristina Pinheiro

Você com certeza já viu ou ouviu alguém comentar a frase “We Can Do It!”, se não por conhecidos, talvez tenha visto em jornais da TV, revistas e até mesmo filmes. Se não, ainda existe a possibilidade de ter encontrado em algum momento o cartaz que acompanha a frase, estampando uma mulher musculosa com o braço flexionado, usando uniforme de trabalho e um lenço vermelho na cabeça.

Rosie the Riveter ou Rosie a Rebitadora, foi um cartaz criado em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, por J. Howard Miller, um designer gráfico contratado pela Westinghouse Company’s War Production Coordinating Committee para fazer uma série de cartazes feitos para o “war effort” — mobilização de recursos industriais e humanos de apoio à força militar (MENDONÇA, 2015).

Mendonça (2015) destaca que o poster inspirado em uma foto de Naomi Parker Fraley, trazia os dizeres “We Can do It!” (“Nós podemos fazer isto”,em tradução livre) e tinha dois objetivos: incentivar mulheres a irem ao trabalho nas fábricas — principalmente de armas e bombas, uma vez que os homens estavam lutando a Guerra; e convencê-las a voltar para a casa quando estes retornassem. O poster foi exposto por poucas semanas, somente em uma das fábricas da Westinghouse Company e foi visto por poucas pessoas, uma vez que não foi publicado em lugar algum. Além disso, o poster não era intitulado Rosie the Riveter e somente ganhou o título alguns anos depois.

É importante destacar que a intenção da campanha de guerra não foi, de forma alguma, incentivar o empoderamento feminino. Mcgrath (s/d. apud MENDONÇA, 2015) afirma que, apesar do trabalho feminino ter sido positivo para a Guerra, as mulheres ainda eram representadas como uma força inadequada de trabalho.

Analisando o pôster, é possível perceber que a figura é retratada como uma mulher branca, jovem, magra e atraente, além de trajar as cores vermelha, branca e azul, representando o patriotismo norte-americano por trás do trabalho.

Além disso, vemos que Rosie, apesar da postura masculinizada, está maquiada, com sobrancelhas feitas e o cabelo arrumado, preservando a feminilidade e beleza. Cada traço da imagem de Rosie foi pensado para destacar que as mulheres deveriam e poderiam trabalhar, mas que seus lugares, na verdade, sempre seriam em casa, sendo mães e donas de casa.

Fonte: Smithsonian Magazine, 2017

Essa imagem foi reforçada alguns meses depois quando um novo pôster foi publicado no Saturday Evening Post, dessa vez criado por Norman Rockwell. Este sim, era chamado de Rosie the Riveter e ilustrava uma mulher musculosa, comendo um sanduíche enquanto segura uma enorme rebitadora. Rosie foi feita mais uma vez para reforçar que, embora capaz de fazer o trabalho dos homens, o lugar da mulher era como dona de casa. Mesmo suja de graxa, a mulher ainda está maquiada e bem penteada, entoando sua feminilidade, enquanto come um sanduíche claramente trazido de casa, ressaltando seu lado doméstico.

Fonte: Smithsonian Magazine, 2017.

Ambos os cartazes reforçavam apenas o que as mulheres já vivenciavam: o poder do patriarcado em um mundo capitalista. Além disso, a ideia era que mulheres como as descritas nos cartazes fossem ao trabalho, no entanto, a realidade nas fábricas fora bem diferente, uma vez que a grande maioria das mulheres que trabalhavam eram negras, viúvas, solteiras e de classe baixa, além de já terem trabalhado mesmo antes da Guerra (MENDONÇA, 2015). Assim, originalmente, Rosie the Riveter não representava a força feminina que estava nas fábricas.

Somente por volta dos anos 60 com o surgimento do Feminismo Liberal, a imagem da mulher com os dizeres “We Can Do It!” é restaurada e chamada popularmente de Rosie, the Riveter.

A ideia era que a Rosie de braço flexionado e bandana representasse agora, não somente as mulheres brancas que trabalhavam nas fábricas com rebitadeiras, mas todas as mulheres – negras, viúvas e pobres – que foram a força de trabalho em um período turbulento do país.

Geertz (1989, apud MENDONÇA, 2015) destaca esse processo como uma forma de “emancipação” feminina, uma vez que houve um poder hegemônico centrado em impedir uma mudança nas estruturas de gênero e ainda assim, mesmo que alguns anos depois, ocorreu uma ressignificação simbólica da Rosie. Segundo Mendonça (p. 39, 2015):

“nesse caso, o significado originalmente pretendido para Rosie pelas vozes (sujeitos) hegemônicas foi reapropriado e transformado pelas vozes dos sujeitos oprimidos, e usado como símbolo de luta contra a desigualdade de gênero”.

O efeito dessa adequação da Rosie foi a conversão em um símbolo de luta que foi concretizado com uma maior entrada de mulheres no mercado de trabalho após a Guerra.

Esse período é marcado pelo movimento do feminismo liberal, uma vez que se começava a discutir princípios de igualdade de direitos, cidadania e a conciliar as mudanças e reformas com a manutenção das estruturas políticas existentes (MASONI, 2013). É possível inserir, portanto, esse pontapé inicial da nova Rosie da emancipação feminina na chamada segunda onda da Teoria Feminista, onde um número maior de mulheres entrava no mercado de trabalho e começava a lutar por seus direitos.

Entretanto, Phillips (1993, apud MASONI, 2013) afirma que a vertente liberal era criticada pelo chamado feminismo socialista, vertente surgida durante a Guerra Fria, que defendia a ideia de que não existia “uma mulher”, mas sim várias mulheres em diferentes realidades e contextos sociais que eram ignoradas por políticas de generalização feminina. 

A imagem da Rosie, adotada pelas liberais, não era diferente. Embora muitos argumentassem que sim, Rosie ainda não representava a gama de mulheres que vivenciavam a luta feminista todos os dias.

Com o passar dos anos, a Rosie original foi ganhando adaptações e sendo mais acolhida pelo movimento feminista. Em 2017, durante a Marcha das Mulheres pelo mundo todo, Abigail Gray Swartz, inspirada pela luta feminina no Maine, desenhou sua própria versão de Rosie The Riveter. Rosie agora era negra e usava o pussyhat (chapéu utilizado pelas mulheres durante a marcha). Segundo Abigail, a ideia de recorrer a Rosie foi para ressaltar as transformações conquistadas desde a Segunda Guerra Mundial.  A pintura foi capa do jornal The New Yorker e estampou jornais do mundo todo.

Fonte: The New Yorker, 2017

Mendonça (2015) compara esse processo de adaptação da Rosie durante os anos com o de Castells, em seu livro “O Poder Identidade”, no que se refere à apropriação de termos pejorativos utilizados contra minorias e apropriá-los de forma a se tornarem símbolos de resistência. A autora traz como exemplo o termo “bichas loucas”, utilizado contra a comunidade gay e que foi adotado pelos mesmos como símbolo de força. Rosie the Riveter deixa de ser símbolo de guerra e opressão contra mulheres e passa a ser símbolo da luta feminina contra o patriarcado e por equidade.

Referências

ESCHNER, Kat. The Riveting Story of an American Icon. Smithsonian Magazine, Washington, 7 de Dez. 2017. Disponível em: https://www.smithsonianmag.com/smart-news/how-rosie-riveter-got-famous-180967415/?utm_source=smithsoniandaily&utm_medium=email&utm_campaign=20171207-daily-responsive&spMailingID=32129837&spUserID=NjYzMDQ4MTgzNTAwS0&spJobID=1180950853&spReportId=MTE4MDk1MDg1MwS2 Acesso em: 16 de mar. 2021.

MASONI, Melissa. O feminismo e sua contribuição para as Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Bennet – Centro Universitário Metodista, 2013. Disponível em: https://pt.slideshare.net/melmasoni/o-feminismo-e-sua-contribuio-para-as-ri Acesso em 16 mar. 2021.

MENDONÇA, M., Z., F. O trabalho da mulher americana durante a segunda guerra mundial e sua contribuição para o feminismo. Recife: Faculdade Damas da Instrução Cristã, 2015.

MOULY, Françoise. Cover Story: Abigail Gray Swartz’s “The March”. The New Yorker, 27 de jan. 2017. Disponível em: https://www.newyorker.com/culture/culture-desk/cover-story-2017-02-06 Acesso em 16 de mar. 2021.

SWARTZ, Abigail Gray. The New Yorker: Rosie the Riveter. Gray Day Shop, Maine, 2017. Disponível em: https://graydayshop.com/pages/womens-march-the-new-yorker-cover Acesso em 16 de mar. 2021.


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